Objetivos e intenções do Onda Negra.

O Onda Negra surge como um desejo de exteriorização de algumas reflexões que estão diretamente ligadas à questão racial. Almejamos com este espaço a problematização e discussão sobre temas como o racismo, o preconceito racial e a discriminação. Possivelmente, veremos também discussões sobre processos que apontam para uma predominância da desigualdade social e racial no nosso país.

Em alguns momentos, apresentaremos sugestões, análises e reflexões de filmes que abordam diretamente ou indiretamente a temática racial, ou, que dialoguem com a mesma. Salientamos que dentro desta proposta não deixaremos de abordar, por exemplo: a questão de gênero, os processos do mundo do trabalho e a questão racial, a questão da violência racial e, principalmente, alguns processos que envolvam reparação e ganhos para a população negra, como no caso das políticas de Ações Afirmativas.

Por último, explicamos que a origem do nome Onda Negra foi pensado a partir do livro da Celia de Azevedo, "Onda negra, medo branco". Nesse livro, a autora estabelece um intenso debate em torno das "questões senhoriais travadas por abolicionistas e imigrantistas ao longo do século dezenove. Decerto esse debate ainda se arrastaria pelo tempo não fosse a intervenção dos próprios escravos com suas ações autônomas e violentas, aguçando os medos da 'onda negra', imagem vívida forjada no calor da luta por elites racistas."

Sendo assim, julguei pertinente fazer uma alusão a esta "onda negra" que se tratava do medo das elites com os retrospectos das lutas anti-escravistas (ou por libertação dos negros escravizados) como por exemplo, a Revolução Haitiana; para tratar dos problemas contemporâneos que envolvem a condição do negro em nossa sociedade. Enquanto as lutas ganham força por ganhos de direitos, por igualdade de condições no mercado de trabalho em relação aos brancos, por políticas de reparação e de inclusão com as Ações Afirmativas, percebe-se que todo esse movimento ainda desperta em alguns grupos da nossa sociedade um incômodo, uma desconfiança e a meu ver um medo.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A USP e sua relutância com as cotas raciais.



Depois de observar por alguns dias manifestações contra a postura da USP que insiste em não aceitar o critério da cota racial e cotas para alunos oriundos de escola pública, com a reserva de vagas em 50% dos seus cursos, fiquei me perguntando o seguinte: por qual motivo essa universidade de São Paulo, prefere fazer um processo de implantação das cotas raciais diferente das demais federais do país? 

Nesta reflexão, me deterei na questão das cotas raciais. Já ouvi falar muito bem do padrão de excelência da USP, pensando no caso que me é mais próximo e da minha formação em sociologia, seu curso de pós-graduação é o de maior conceito do país. Conceito 7. Tornando-se uma das mais conceituadas no que diz respeito à Sociologia. Dito isso, prefiro ficar com este dado a ter que entrar nos dados sobre sua produtividade no campo da saúde e das exatas. Quero destacar também a fama e o fato que dentro da USP são formados uma grande parte da elite branca que se concentram em diversos cargos de poder, tanto dentro da universidade quanto fora - no mercado de trabalho. 

Mesmo sabendo de tudo isso, continuei não contente com tais situações e alimentando um desejo de observar sociologicamente mais de perto. Então, tive a oportunidade de tal observação com a participação num congresso internacional de sociologia do trabalho, dentro desta universidade. Com o olhar atento de um sociólogo negro e oriundo da escola pública, busquei imagens e pessoas semelhantes a mim nos espaços desta universidade. Encontrei muitos brancos, com seus carros importados, seus celulares galaxis I, II..., seus tablets com o símbolo da maça e tal...

Perguntava-me, cadê os negros desta universidade? Cadê os negros participando destes espaços e dividindo todo o processo de construção do saber/poder que ali se dava? Não vou ser injusto dizendo que não vi nenhum negro. Vi sim! Mas, confesso indignadamente que via mais em trabalhos de limpeza, de segurança, vendendo lanches e em trabalhos que não me parecia em pé de igualdade com aquela elite carregada com seus apetrechos que os empoderavam e os faziam circular felizmente pela universidade para mais algumas aulas para exercitarem seu inglês, francês, italiano que provavelmente aprenderam na infância, nas ótimas escolas particulares que seus pais gozando de boas condições financeiras propiciaram para eles. Sei que alguns negros tiveram essas oportunidades também. Mas mesmo assim, só uma seleta minoria de negros tem esta oportunidade. Com isso, digo que quase não vi negros nesta universidade. Vi muito pouco se comparado a sua "grandeza" tanto nas dimensões espaciais quanto nas dimensões do saber.

Sabemos bem que não devemos julgar como correlatos o sucesso de "um" com a possibilidade de conquista do acesso da grande maioria dos negros que, na realidade, não conseguem adentrar na universidade de São Paulo para estudar. É fato que houveram processos históricos de desigualdade, discriminação e marginalização social que foram colocados para o povo negro, na sua história e que ainda são vistos até hoje. Então, está na hora de reparar o dano.

Felizmente, já estamos observando alguns ganhos, nos fortalecendo e exigindo ainda mais direitos e igualdade de condições nas universidades e no mercado de trabalho. Hoje, posso dizer com todas as forças, COTAS RACIAIS SIM! E SEM ARTIMANHAS.

Novamente repito a pergunta: por que a USP ainda insiste em não reconhecer este direito e reluta contra este processo de reparação que seus espaços universitários tão brancos insistem em se fazer valer e se mostrar?

Não vou me alongar mais em reflexões e vou direto ao ponto. O quê a USP, aqui entendida pela figura do governo do Estado de São Paulo e da Reitoria, não quer de jeito nenhum é ver a divisão dos seus espaços de poder com os negros e indígenas. Vistos até hoje como incapazes, marginais, "primitivos" e até mesmo sem uma formação condizente para o "padrão USP de conhecimento". Este tipo de discurso é uma falácia.

Já existem dados que comprovam que os alunos cotistas não baixam nível nenhum de ensino e que pelo contrário,mantém ou até aumentam os índices de avaliação das universidades. Dito isso, você consegue imaginar uma USP tendo que lançar para o país e para o mundo um número de 50% de profissionais, professores, especialistas e cientistas, compostos por negros, alunos de escola pública e indígenas formados em vários dos seus cursos e sem distinção? Podendo certamente ocupar os cargos de poder de muitas instituições e do mercado de trabalho? Pensem nisso! No por que esta universidade não quer aceitar o processo de Ação Afirmativa - com o critério de cotas raciais - como todas as universidades federais vêm aceitando. Esta relutância tem muito a dizer e a nos fazer refletir.



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5 comentários:

  1. Ótimo, está muito bom o seu Blog, siga em frente. Um abraço.

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  2. Estamos juntos. Abraços. Sucesso nesse seu novo projeto.

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  3. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100002

    Link de uma entrevista do Octavio Ianni no Scielo que vale a pena ler.

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  4. No aguardo de novos textos. Abraços! A onda é negra, se liguem! Parabéns pra Rafa, integrada na onda, com sua visão consciente da causa.

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    1. Obrigado pelo apoio de sempre pai. E obrigado também pela indicação do texto Rafaela. Abração! Sobre as postagens, já tem uma nova.

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