Objetivos e intenções do Onda Negra.

O Onda Negra surge como um desejo de exteriorização de algumas reflexões que estão diretamente ligadas à questão racial. Almejamos com este espaço a problematização e discussão sobre temas como o racismo, o preconceito racial e a discriminação. Possivelmente, veremos também discussões sobre processos que apontam para uma predominância da desigualdade social e racial no nosso país.

Em alguns momentos, apresentaremos sugestões, análises e reflexões de filmes que abordam diretamente ou indiretamente a temática racial, ou, que dialoguem com a mesma. Salientamos que dentro desta proposta não deixaremos de abordar, por exemplo: a questão de gênero, os processos do mundo do trabalho e a questão racial, a questão da violência racial e, principalmente, alguns processos que envolvam reparação e ganhos para a população negra, como no caso das políticas de Ações Afirmativas.

Por último, explicamos que a origem do nome Onda Negra foi pensado a partir do livro da Celia de Azevedo, "Onda negra, medo branco". Nesse livro, a autora estabelece um intenso debate em torno das "questões senhoriais travadas por abolicionistas e imigrantistas ao longo do século dezenove. Decerto esse debate ainda se arrastaria pelo tempo não fosse a intervenção dos próprios escravos com suas ações autônomas e violentas, aguçando os medos da 'onda negra', imagem vívida forjada no calor da luta por elites racistas."

Sendo assim, julguei pertinente fazer uma alusão a esta "onda negra" que se tratava do medo das elites com os retrospectos das lutas anti-escravistas (ou por libertação dos negros escravizados) como por exemplo, a Revolução Haitiana; para tratar dos problemas contemporâneos que envolvem a condição do negro em nossa sociedade. Enquanto as lutas ganham força por ganhos de direitos, por igualdade de condições no mercado de trabalho em relação aos brancos, por políticas de reparação e de inclusão com as Ações Afirmativas, percebe-se que todo esse movimento ainda desperta em alguns grupos da nossa sociedade um incômodo, uma desconfiança e a meu ver um medo.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O tão esperado beijo gay aconteceu... E onde foi parar a representação dos mais de 50% de negros da população brasileira?

Quando busquei uma imagem sobre negros e negras na novela Amor à Vida no Google, só apareceu esta imagem e a imagem do menino negro que foi adotado por Niko (Thiago Fragoso). Será um problema do Google? Preferi esta imagem por dialogar mais com a minha reflexão.


A novela teve seus altos e baixos, talvez, mais baixos do que altos. Mas será que podemos ver o beijo do Félix (Mateus Solano) com o Niko (Thiago Fragoso), no final da novela, como um ganho no processo de desconstrução do pensamento histórico-social machista e heterossexista da sociedade brasileira? Esperemos para ver os desdobramentos na vida real.

O que sei, ao observar o enredo da novela, seja pelas redes sociais, seja assistindo, é que a sociedade representada ou que está presente na construção das suas relações sociais “ficcionais”, quase não existem negros.

Presenciamos protestos feitos durante o desenrolar da trama justamente por não existirem negros médicos e por quererem violentar a criança negra, ao desejar raspar o seu lindo cabelo Black Power, visto como uma estética não aceitável pelo público da novela (talvez por racismo e/ou desconhecimento da estética negra). E vou além nesta minha crítica, onde estão os mais de 50% de negros da nossa sociedade? Eles não fazem parte do grupo de amigos dos personagens da novela? Eles não fazem parte da vizinhança? Onde eles estão?


No contexto do hospital, depois de muita briga e muita crítica nas redes sociais, colocaram dois personagens negros. Uma negra neurocirurgiã e um negro psiquiatra. Se não me falha a memória só os vi em dois ou três capítulos (ou até menos). E as famílias negras? Você viu alguma? Eu não vi.


O que apareceu no último capítulo da novela foi um presídio repleto de mulheres negras e um negro corrupto que aceitou suborno para ajudar na fuga de algumas presas. É este o papel que nos cabe na representação social que a novela quis mostrar? Ver gays brancos e ricos é mais “palatável”? Mais tolerável? Ou não? Ou estou delirando e o fato de não demonstrar a população negra nas tramas da novela como deveria foi só uma questão de escolha, uma simples opção? Só o fato de ter um menino negro sendo adotado por dois homens gays, brancos e ricos, já alimentou muitas críticas sobre manter ou não manter o cabelo Black da criança que, na minha opinião, era só pretexto para justificar a raiva de não entender como os dois personagens brancos e ricos adotam um menino negro.


Agora, imaginem o Félix (Matheus Solano) apaixonado e dividindo cenas românticas com um personagem negro? Será esse o próximo passo das telenovelas brasileiras? Será que rola?



Sei que não se pode exigir muito das novelas, mas o mínimo que se pode querer é que elas sejam fiéis, na medida do possível, ao verdadeiro contexto social que estamos vivendo. Ainda existem muitos jovens sendo espancados, perseguidos e assassinados por causa de uma orientação sexual que vai na contracorrente da heteronormatividade, existem negros sendo discriminados e que estão numa dispendiosa luta por mais respeito e igual dignidade nas relações sociais que enfrentam no dia a dia. Agora, se juntarmos alguns dos principais eixos que a novela buscou abordar: orientação sexual, raça, religiosidade e classe social, saberemos que a realidade mostrada pela novela, por mais que apareça revestida de “boas intenções”, está muito longe da realidade que estamos vivendo.

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4 comentários:

  1. A novela, embora com algumas abordagens errôneas procurou dentro do possível da ficção trabalhar com temáticas polêmicas sim ! E o faro de não ter negro como protagonista ou com personagem de maior expressão não quer dizer que houve privilégio de uma classe branca e privilegiada, se o Félix não se relacionou com algum negro, não seria porque há questões de atração no ser humano, e que há pessoas que preferem brancos, pura e simplesmente porque são questões de ordem subjetivas (desejo)? Quanto ao cabelo do garoto houve um exagero em alegar que o corte do cabelo black foi por preconceito, justamente pelo fato de que foi sim uma garoto negro adotado por um casal branco e abastado que sequer cogitou a possibilidade de uma criança branca, já não é um sinal claro de conscientização? Podem vir com o argumento, mas os poucos negros que apareceram estavam associados a servir comida no hospital para os pacientes, uma bela negra Soro Positivo, numa clara tentativa de discriminação, Então me pergunto o que vocês querem? Uma novela em que todas as famílias sejam negras e abastadas, os mocinhos e mocinhas negros? Como se existissem apenas negros pobres, é preciso ponderar também essa justificativa de negretização da sociedade brasileira, nós somos mamelucos, cafuzos, brancos, indígenas somos na mais pura e bela MISTURA, portanto deixemos de querer reparar um erro histórico com o ódio, sejamos coerentes com essa guerra discursiva não avançaremos em nada, mas sim disseminaremos ódio!

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  2. "Gosto não se discute"?
    Gosto se discute sim, uma vez que ele não brota individualmente. Gosto é construído socialmente. Os gostos são aprendidos na família, na escola e através das representações sociais, da mídia...Por isso a importância de revermos as representações sociais, pois elas são geradoras ou incentivadoras do que você chama de "gosto".

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  3. Sim gosto é discutível, desde que vocês sociólogos não levem em consideração apenas a construção social como base, pois é isso que fazem ao desprezarem por exemplo elementos da psicologia que tratam de questões subjetivas, não me venha com esse discurso exclusivista sócio interacionista, ou como peter bergniano, pois sabem muito bem que há elemntos que fogem a alçada do "concreto", o que vocês militantes fazem é esquivar-se do debate científico que tanto gostam de pregar e fazem guerra ideológica, haja vista os departamentos de várias universidades que crucificam aqueles que são contra cotas alegando que são brancos privilegiados que são contrários, há quem faça críticas a rede globo por exemplo, quando de uma belíssima minisérie Gabriela, alegando o machismo de Jorge Amado, isso é bem típico de quem toma a causa pelos uivos e não pela análise!

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  4. É muito engraçado ler esse tipo de discurso: 'os sociólogos isso, os sociólogos aquilo', mas e as pessoas que nem sequer se nomeiam quando marcam sua argumentação, chamamos de quê? Sou socióloga, professora da rede pública, mulher, tenho nome e sobrenome para lançar mão de qualquer discussão que me interesse. Como jogar as cotas ou a alegação de alguém sobre 'o machismo de Jorge Amado' e até mesmo algo chamado de 'negretização da sociedade brasileira' de forma tão rasa? Basta ler os últimos estudos do IPEA ou do IBGE sobre a população brasileira, os dados sociais e raciais que eles trazem, para saber do que se está falando no artigo. Basta ver um filme do Zózimo, ler a Carolina de Jesus, escutar a música dos Racionais, olhar para a sociedade de forma diferente, com olhos críticos ao invés de vomitar balelas ou engôdos científicos. Aprender quem é que faz ideologia lendo Marilena Chauí ou Mezáros, saber o que é dificuldade e luta lendo as crônicas do Ferréz. Uma pessoa deve ser capaz de refletir sobre o conteúdo de uma novela para além do fator de entretenimento que ela traz, buscando compreender por que os negros aparecem em papéis de pouca relevância, como são os personagens interpretados por atrizes negras, porque um tipo de cabelo como o dread pode gerar polêmica ou porque a maior parte das famílias retratadas são brancas (e não me venha com nomenclatura escravagista ou com a ideologia da miscigenação, pois já passamos desse patamar faz um tempo). Além disso, pensemos: trabalhar com temáticas polêmicas como foi afirmado, não significa de pronto que foi feito da melhor maneira. Há sim escolhas e subjetividades envolvidas nesse processo, aliás são elas que formam o indivíduo que somos. Porém não o somos sozinhos, vivemos em sociedade e respondemos todos os momentos a anseios, expectativas, padrões e caminhos que nos são colocados como demandas, isso tudo por acaso está isento de ideologia, intencionalidade, preconceito? Sejamos realistas, levemos em conta a história e analisemos as questões com a serenidade que elas merecem. Guerra discursiva? Ódio? Isso tudo é provocado por quem fala das injustiças ou por quem as provoca? Não cometa o pior dos erros, não confunda o opressor com o oprimido.
    Rafaela Rabesco

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