Objetivos e intenções do Onda Negra.

O Onda Negra surge como um desejo de exteriorização de algumas reflexões que estão diretamente ligadas à questão racial. Almejamos com este espaço a problematização e discussão sobre temas como o racismo, o preconceito racial e a discriminação. Possivelmente, veremos também discussões sobre processos que apontam para uma predominância da desigualdade social e racial no nosso país.

Em alguns momentos, apresentaremos sugestões, análises e reflexões de filmes que abordam diretamente ou indiretamente a temática racial, ou, que dialoguem com a mesma. Salientamos que dentro desta proposta não deixaremos de abordar, por exemplo: a questão de gênero, os processos do mundo do trabalho e a questão racial, a questão da violência racial e, principalmente, alguns processos que envolvam reparação e ganhos para a população negra, como no caso das políticas de Ações Afirmativas.

Por último, explicamos que a origem do nome Onda Negra foi pensado a partir do livro da Celia de Azevedo, "Onda negra, medo branco". Nesse livro, a autora estabelece um intenso debate em torno das "questões senhoriais travadas por abolicionistas e imigrantistas ao longo do século dezenove. Decerto esse debate ainda se arrastaria pelo tempo não fosse a intervenção dos próprios escravos com suas ações autônomas e violentas, aguçando os medos da 'onda negra', imagem vívida forjada no calor da luta por elites racistas."

Sendo assim, julguei pertinente fazer uma alusão a esta "onda negra" que se tratava do medo das elites com os retrospectos das lutas anti-escravistas (ou por libertação dos negros escravizados) como por exemplo, a Revolução Haitiana; para tratar dos problemas contemporâneos que envolvem a condição do negro em nossa sociedade. Enquanto as lutas ganham força por ganhos de direitos, por igualdade de condições no mercado de trabalho em relação aos brancos, por políticas de reparação e de inclusão com as Ações Afirmativas, percebe-se que todo esse movimento ainda desperta em alguns grupos da nossa sociedade um incômodo, uma desconfiança e a meu ver um medo.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Solomon Northup, Vinícius Romão e os açoites da violência racial.

Subtítulo:

Aspectos da violência que até hoje machucam o corpo e a mente dos negros deste país.


Confesso que ainda não consegui esquecer o caso do Vinícius Romão. Eu sou negro e sei como é parecer suspeito e estar sempre sob o olhar sanguinário e racista de alguns policiais. Sei que o problema não é somente uma questão de "quem é a culpa pelo que aconteceu com ele", mas sim um problema de ordem estrutural da nossa sociedade brasileira. Não podemos negar que a nossa sociedade é racista. Essa é uma triste afirmação, mas é a nossa realidade.


Vários casos de racismo pipocam quase todos os dias nas redes sociais e temos que estar cientes que estamos passíveis de sermos os próximos. A cada dia que passa, pelo menos quem já sofreu algum tipo de discriminação, temos que permanecer com a guarda firme e sempre alerta para não sermos pegos de surpresa e sabermos agir imediatamente quando este mal (o racismo, a discriminação/preconceito racial) acontecer.


Este texto é fruto de uma reflexão maior que fiz no artigo anterior sobre o filme “12 anos de escravidão”. A ideia já estava pronta e a reflexão também, mas antes era necessário expor o meu entendimento do filme e os aportes que ele nos dá para pensar o hoje. Principalmente no que se refere ao caso do Vinícius Romão. O que aconteceu com ele é o que já vem acontecendo com muitos negros e negras que sofrem variados tipos de violência racial quase todos os dias.


Gosto muito de trabalhar com imagens. Montei estas aqui e queria que refletissem. Vejam os efeitos da violência racial e as suas marcas na feição do Solomon Northup, personagem real, muito bem interpretado por Chiwetel Ejiofor, antes de ser vendido como escravo e depois do contato com os efeitos deste sistema perverso que mantém suas raízes fincadas nas nossas relações até hoje:





Depois de observar as fotos do personagem Solomon, vejam o antes e o depois da prisão equivocada do Vinícius:





Conseguem perceber os efeitos da transformação facial e do olhar? O primeiro ficou 12 anos sofrendo as perversidades do sistema escravista dos Estados Unidos. O segundo ficou mais de duas semanas preso injustamente pelo simples fato de ser negro e parecer com o suspeito.


O que observamos de incomum entre o personagem vivido por Chiwetel Ejiofor e o Vinícius Romão? Eles são negros! Negros no pleno desfrutar da sua liberdade... Um buscava emprego e o outro saía do emprego... Igualdade de direito para negros na sociedade escravista poderia ser visto como um sonho quase utópico, todavia, a partir de muita luta, tornou-se realidade. Avançamos e tivemos alguns ganhos. Mas será que estes ganhos foram suficientes? No que tange ao Vinicius Romão, podemos dizer que houve avanços no tratamento com os negros hoje em dia? Anos se passaram e a cena se repetiu. Em formas e contextos diferenciados. Mas a violência teve seu ritual assegurado. Vimos mais um negro, dentre tantos outros, ter sua liberdade cerceada, encarcerado indevidamente e só depois de dias, entre muito apelo e campanha para a sua soltura, Vinicius foi liberado e está livre.


Ah! Livre entre aspas não é. Nunca dá para termos uma liberdade por completo. O sobressalto sempre fará parte do nosso cotidiano. Ambos tiveram a vida revirada. O corpo e a mente violados por agressões, injúrias e o peso de um trauma que não trará novamente a vida de antes.


Preocupo-me, pois sei que o que aconteceu com o Romão pode acontecer comigo a qualquer momento. Com você ou com um dos seus familiares. Então, essa é a minha forma de expressar a minha indignação e pedir que não deixemos este fato cair no esquecimento e ser mais uma estatística fria e inanimada. Temos que dar vida e força para buscarmos mudanças. 


Fiquei pensando durante os acontecimentos: será que existe curso de formação de “Educação para Relações Étnico-Raciais” para policiais, delegados e/ou todos envolvidos com a justiça (direta e indiretamente) deste país? Não que queira dizer que seja só responsabilidade da educação nos livrar do racismo institucional ou institucionalizado, mas que já seria um caminho isso seria. Eu nunca ouvi falar e nem vi nenhum tipo de divulgação. Fica a pergunta.

terça-feira, 4 de março de 2014

12 anos de escravidão – Na história de um homem, a história de um povo.




Para ser bem sincero, eu nunca fiquei tão feliz e empolgado com o Oscar como eu fiquei ao saber das premiações de Lupita Nyong’o como melhor atriz coadjuvante e de melhor filme para “12 anos de escravidão”. É óbvio que a minha alegria se deve à importância e à representatividade de termos como ganhadores do prêmio: uma atriz negra, nascida no México e criada no Quênia, um filme dirigido por um diretor negro, o britânico Steve Mcqueen e, principalmente, pela audácia e grandiosidade do filme em apresentar para o mundo a história de Solomon Northup, um homem negro, livre, que foi vendido como escravo e submetido a 12 anos de escravidão. Ele sentiu no corpo e na mente as agruras e violências de um sistema que marcou a história e a vida de um povo africano e, concomitantemente, dos seus descendentes, muitos negros da América e outros que foram espalhados pelo mundo.

Peço licença e desculpas, pois, nas reflexões que farei sobre o filme, lançarei mão de alguns spoilers.

Não é novidade nenhuma que este filme já nasceu um grande clássico e, especialmente, representa um grande marco na história do cinema norte-americano e mundial, no que se refere ao tratamento da questão do negro, da escravidão, do racismo, da segregação e/ou do preconceito racial e etc.. Sem falar que é a primeira vez que um diretor negro tem o filme que dirigiu escolhido como o melhor filme dentre os concorrentes na entrega do Oscar. Esta também é uma grande vitória.

Na minha leitura do filme, percebo um toque diferente, um toque de genialidade e sensibilidade que o torna um divisor de águas. Já assistimos alguns filmes que remontaram o passado escravista estadunidense, que construíram de diversas maneiras as crueldades cometidas com os primeiros negros escravizados no continente africano e trazidos para a América. Lembremos-nos do filme “Amistad” que considero como estando no mesmo patamar de intensidade e força. Mas dessa vez, não foi preciso reconstruir a viagem até o continente africano para mostrar o que foi a escravidão. Nem partir de uma história em que os escravos já estavam subjugados aos montes nas senzalas e sendo violentados e assassinados todos os dias.

O que aconteceu foi que Steve Mcqueen encontrou a história de Solomon Northup. Um homem negro e livre que vivia em Saratoga, no norte dos EUA. Neste período, o fim da escravidão já tinha sido decretado. Sendo assim, além de um negro livre, Solomon era violinista e, como vimos no filme, ajudava a sua esposa na complementação da renda familiar ou, se preferirem, no sustento da família. Em uma das cenas, ao entrarem num estabelecimento comercial, fica evidente que era a sua esposa, uma mulher negra, que decidia o que comprava ou o quanto gastava. Ela pergunta sobre o preço de um produto e Solomon se assusta com o preço e age como se não fossem comprar, logo, sua esposa olha para o vendedor e diz que levará e pede para que o mesmo o coloque junto com os outros produtos. Portanto, no meu entender, já vemos no início do filme a figura central da mulher negra na manutenção e sustento do lar e da família.

Solomon como um grande violinista que era, recebe uma oferta de emprego de dois homens brancos, que o enganam, sequestram e o vendem para o sul do país, onde a escravidão permanecia firme. É a partir daí que o filme se torna um divisor. O excelente ator Chiwetel Ejiofor (que interpreta Solomon Northup) foi fundamental. A transformação no brio e no olhar que o personagem vai sofrendo com as violências a que frequentemente é submetido, é de uma grandeza e vivacidade descomunal. O que me marcou foi o olhar. Isso mesmo! A mudança que o seu olhar foi sofrendo, deixando para trás um olhar altivo e autônomo para encarnar um olhar de raiva, desespero e pavor.



Ao ser enganado pelos possíveis contratantes, Solomon acordou no dia seguinte com grilhões nos pés, mãos acorrentadas e sem entender o que se passava. Essa cena do seu despertar é fantástica. Na noite do encontro com os contratantes via-se um homem livre, na manhã seguinte um homem escravizado. Nessa cena, encontra-se uma das maiores riquezas do filme. Esta cena foi realizada com tal grau de vivacidade e realidade que foi suficiente para nos deixar angustiados e sem ar.

Pensemos: você nasce livre e alguém, um homem branco, da noite para o dia, te diz e quer te fazer entender que você é um escravo fugido. Naquele momento, sua liberdade acabava de ser roubada ou capturada. O mix de raiva, indignação e não entendimento sentidos por Solomon sobre a situação em que foi colocado torna-se um fato compreensível na cena e na história. O pior vem em seguida...

Como fazer um negro livre deixar de assumir e gritar com todas as suas forças que é livre e compreender que agora é um escravo? É nessa cena que se instaura a violência simbólica e real. Eles puxam as correntes de tal maneira que deixaram Solomon numa posição curvada, com mãos e pés amarrados, sem poder de reação. Lendo a cena do filme, posso dizer sem titubear que a forma que o colocaram para ser espancado, foi uma maneira de “quebrar” a sua dignidade e sua altivez, fazê-lo perceber que ali não existia um homem livre, mas sim, um negro, um “ser inferior” que estaria abaixo dos seus superiores e donos.

Os acoites e as pauladas desferidos nas costas de Solomon até se quebrarem, bem como as injúrias e xingamentos, foram a fórmula para condicioná-lo à situação de escravizado. O seu silêncio depois de estar com as costas ensanguentadas e com a carne dilacerada, foi a resposta que ele pode dar para os seus algozes sobre a pergunta que o faziam constantemente: você é um escravo?



Depois disso, Solomon se tornaria um escravo. Mentalmente ainda houve resistência, mas o seu corpo estava escravizado. Sua mente resistiu até onde conseguiu. A morte parecia só uma questão de tempo. A subserviência, em muitos casos, era o passaporte para a sobrevivência. Resignar-se, momentaneamente, se transformou em estratégia para se manter vivo, enquanto não encontrava uma alternativa que o fizesse sair daquela situação.
O filme “12 anos de escravidão” para além destas questões que acabei de abordar, nos permitiu ver outros temas que estavam inseridos na história do Solomon. E o filme retratou muito bem esses temas.

Solomon Northup não foi um negro escravizado que se rendeu facilmente à situação que foi submetido. Em boa parte do filme ele tenta mostrar que tinha algo diferente dos demais e que estava para além de sua cor. Mas isso não adiantava. Ele poderia ser letrado, ter conhecimentos sobre o mundo, a política e a música que um fator lhe condicionava ao escravismo, a cor da sua pele. Ele era negro igual aos outros e tal condição o remetia à condição de escravo.

Ele passou por algumas fazendas onde a relação com os senhores de escravos tinha uma escala de variações entre: ruim, pior e muito pior. Primeiramente, vemos numa das cenas a relação das negociações e valorações do negro enquanto mercadoria, um produto a ser vendido. Depois de ter sido vendido, para um senhor religioso, cristão, a vida do Solomon poderia ser mudada se o senhor dele realmente o escutasse e quisesse ajudá-lo. Mas Solomon custou caro. E nesse quesito, religião e economia não andam de mãos dadas quando a razão era a libertação de um negro que se dizia livre e injustiçado.

Esse senhor religioso que sempre realizava a leitura da bíblia para os seus escravos, teve que negociar a venda de Solomon para outro senhor, pois, Solomon num ato de fúria e desespero se defende das agressões de um branco que queria chicoteá-lo. Estaria aí o primeiro erro de Solomon? Num acesso de raiva, partir para cima de um branco e espancá-lo mesmo sabendo que isso poderia custar a sua vida? A resposta do branco não demorou, penduraram-no numa árvore com uma corda no pescoço para enforcá-lo, até que surgiu o capataz da fazenda em defesa da propriedade do patrão. E disse para os algozes que o negro era uma propriedade do senhor e eles não poderiam matá-lo, pois o senhor ficaria com prejuízo. Era uma cena muito comum naquele período: ver negros enforcados e alçados como um troféu e exemplo para os demais. A sensação de vê-lo pendurado, se esforçando para ficar nas pontas dos pés para se manter vivo, enquanto o capataz e outros negros não podiam retirá-lo de lá até a chegada do patrão, foi de chorar e machucar a alma.

Já vivendo como escravo do senhor Edwin Epps (Fassbender), um senhor brutal que trata seus escravos com mãos de ferro, as coisas só pioram. Mas mesmo assim, ele ainda tentou fugir algumas vezes, mas, na primeira quase foi enforcado novamente se não fosse uma identificação que explicava que ele era um negro de determinada propriedade e não um negro fujão. Acreditou num branco que se encontrava vivendo no mesmo espaço que ele, trabalhando nos mesmos campos de algodão, confiou-lhe suas economias para que este branco lhe enviasse uma carta que continha um pedido de socorro. Mais uma vez sua vida ficou por um fio e teve de usar de destreza para acabar com a desconfiança do senhor. A partir daí, como continuar confiando no homem branco? Como Solomon sairia daquela situação estando longe de casa, da família, dos amigos, de qualquer possibilidade de liberdade, se para onde tentasse olhar havia pessoas querendo matar mais um negro enforcado, linchado ou no tronco com inúmeros açoites?




Eis que surge um momento que realmente é bem espinhoso e o Steve Mcqueen consegue abordá-lo de uma forma que não me parece uma simples repetição de cenas que já vimos em outros filmes, nos quais existe sempre um branco que é colocado como o “salvador” de um negro escravizado. Creio que o diretor do “12 anos de escravidão” vai além nessa questão e nos possibilita um tipo de situação no filme que vai colocar explicitamente a aversão que muitos brancos do norte dos Estados Unidos, ou até do sul, tinham do sistema escravista e suas barbaridades. Esse era o caso do personagem interpretado por Brad Pitt que ao externalizar sua concepção enfatiza que discorda da forma que o senhor Edwin Epps (Fassbender) trata os negros em sua propriedade. Ele ainda afirma que tinha negros trabalhando para ele, mas que os mesmos recebiam salários, o que demonstra a concepção do personagem em reconhecer como direito dos negros receber pelo trabalho que realizavam.

O que vejo numa das últimas cenas são dois brancos discutindo as formas de como se deveria agir em relação aos negros não só nas fazendas de algodão, mas em todo o país. A cena se torna ainda mais emblemática e importante, quando visualizamos Solomon no meio dos dois senhores brancos. Dando a entender que as questões referentes ao negro dividia o país. Entre inúmeros debates e posições políticas, acadêmicas, culturais e econômicas. Essa forma de expor a cena para mim foi genial.

E, finalizando, a minha argumentação sobre este filme, temos que entender que naquele contexto, havia sim uma necessidade de uma tomada de responsabilidade por partes dos brancos no que se refere às condições às quais os negros foram submetidos. O Solomon tinha amigos brancos no norte dos Estados Unidos que o viam como um sujeito de direito, um homem negro livre e tão igual quanto eles. O abraço que Solomon dá no advogado, não é um simples abraço de gratidão, mas um abraço de amigo para o qual ele escreveu pedindo ajuda. Ele fala no decorrer do filme que poderia provar sua liberdade e que só precisaria escrever para amigos ou familiares para que os mesmos fossem ao seu encontro com os documentos. Temos que entender que naquele período, os brancos no sul escravista jamais deixariam um negro por mais letrado que fosse ter poder e autoridade nas suas propriedades.

Indubitavelmente era necessária a conscientização por parte de determinadas parcelas da população branca para que a justiça começasse a ser feita. Para que Solomon pudesse ter seus direitos salvaguardados. Daí ver a entrada dos negros nos espaços de poder, caberia a um momento mais à frente, com as políticas encampadas por Lincoln e as Ações Afirmativas. Não tenho dúvidas disso.

Por fim, entendo que o filme “12 anos de escravidão” se coloca na atualidade como um instrumento político que pode potencializar mudanças de concepções e avanços no debate atual sobre a figura do negro enquanto um sujeito de direitos e como protagonista da sua própria história. Falo isso, no sentido de que não se deve olhar a condição vivenciada por Solomon, com o olhar piedoso, mas com um olhar de indignação pela situação a qual ele foi submetido. Indignação pela condição que os negros foram subjugados a partir de uma ação imperialista (pensando no período das colonizações na América e neo-colonizações do continente africano) encabeçada por homens brancos, que devem sim, assumir sua responsabilidade política neste processo.

Observo que está inculcado na branquitude ou nos argumentos de muitos homens e mulheres brancos o reconhecimento da “carência” e/ou das dificuldades enfrentadas pelo povo negro, quando na verdade, o que deveria surgir seria o reconhecimento geral de que houve um privilégio, que foi construído historicamente, a partir dos vários séculos em que a população negra serviu de mão de obra escrava para o acúmulo de riquezas de muitas famílias brancas.

Por isso, reitero que as situações sentidas e vividas por Solomon, não só o fez perceber que não bastava ele sair daquela situação e voltar para casa, (que sem sombra de dúvidas era um fator muito importante para ele) mas que era preciso fazer algo a mais, algo urgente para que se extinguisse aquele sistema perverso. Assim, enquanto houvesse força vital dentro dele, ele a aplicaria na luta contra este sistema e na ajuda de outros negros e negras submetidos a tais condições de exploração e violência.

Com certeza, “12 anos de escravidão” nos abre muitas possibilidades de discussões e problematizações que precisam ser expostas para que entendamos que as reverberações vivenciadas por Solomon ainda nos assolam. Enfim, encerro com o agradecimento do Steve Mcqueen, pois, sinto que esta é uma das mensagens que o filme quer nos passar o tempo todo.


“Quero dedicar a todos que merecem não só sobreviver, mas viver. Esse é o grande legado de Solomon. E a todos que sofreram com a escravidão e ainda sofrem hoje.” — disse McQueen.




terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

De Robinson a Tinga: o racismo entra em campo.




Por Rafaela Rabesco¹ e Silvio Matheus

A história de Paulo Cesar, o Tinga e a polêmica sobre a atitude extremamente racista demonstrada pela torcida peruana do time Real Garcilaso, no jogo da libertadores, faz lembrar a história de Jackie Robinson, o primeiro negro norte-americano a jogar na liga principal de beisebol pelo Brooklyn Dodgers em 1946.

No filme “42: A história de uma lenda”, lançado no ano passado, cenas como as vividas por Tinga são multiplicadas a cada cidade visitada pelo time, a cada vitória e a cada participação do jogador. Sua casa é rondada por racistas, recados são dados pessoalmente, ameaças feitas por telefone e por cartas são colecionadas pelo empresário do clube, Branch Rickey. Esse senhor entrou também para a história ao exigir a presença de Jackie no elenco principal dos Dodgers, pois achava que os atletas negros eram os melhores no esporte que ele amava. Branch também foi importante no enfrentamento e na luta contra os membros do time, jogadores e técnicos que insistiam em manter o racismo dentro e fora de campo.

A hostilidade, as ameaças e as agressões verbais eram constantes na vida de Robinson. Não eram só enfrentadas no campo, mas na sociedade extremamente segregada e racista. O racismo e a violência eram declarados. Mas a força e a consciência de Robinson foram sendo alimentadas ao perceber que ele se tornava um grande exemplo de coragem, não só por ser o único atleta negro num time de brancos, numa liga ou competição onde todos os jogadores e envolvidos diretamente eram brancos, mas por enfrentar todas essas adversidades que significavam muito para a população negra e, em especial, para muitas crianças negras e brancas que sonhavam um dia em ser um grande jogador como ele.

Vejam o trailer que apesar de não estar legendado, vale muito a pena.



O que há de comum na história de Robinson, ícone do esporte norte-americano, e a história de vida do jogador Tinga (ver reportagem), muito respeitado e admirado no futebol nacional e internacional é o racismo que perpassa a história de ambos. Ainda que devamos guardar as devidas proporções sobre os fatos, o tempo histórico e, principalmente, o contexto social vivido por estes dois atletas negros.

Lá atrás Robinson também era chamado de macaco. Mais de 60 anos se passaram e vimos o Tinga ser também chamado de macaco por aqui. Vemos que os insultos racistas perpassam o tempo e o espaço. 

Segue um trecho do filme para que sintam a atmosfera enfrentada por Robinson. 



Foi aqui, tanto no Brasil quanto na America Latina, que o Tinga foi ofendido e discriminado. Na nossa América Latina que tanto sofreu os males da colonização. Uma colonização de exploração onde violência, estupros e genocídios foram cometidos. Tornaram-nos alvos de estereótipos que nos inferiorizavam e hoje, com muita luta, estamos conseguindo mudar algumas realidades e concepções. Mas, mesmo assim, uma parcela de um povo cuja ancestralidade descende dos indígenas que tanto resistiram às mazelas da colonização espanhola, uma das mais violentas da América, repetiram e reafirmaram a prática racista.

Não! Não estamos em 1946, nem 1956, nem sequer 1996. Em plenos 2014 do século XXI, Tinga foi vítima do racismo execrável, no campo que é seu meio de vida, onde inegavelmente e à revelia de qualquer argumento racista possível, ele desfere seu talento, sua humanidade, seu trabalho. E ainda sim, o campo é apenas uma parte, uma só parcela, uma pequena mostra da sociedade que produz e reproduz o racismo cotidiano que perdura e que deve ser sempre desmascarado, confrontado e punido.


Assim, a partir desses dois exemplos históricos de que o racismo precisa ser combatido com determinação dentro e fora dos gramados, esperamos inspirar a todos para que não vejamos mais cenas e atitudes como aquelas (da década de 1940 ou do ano 2014), além de ressaltar que a indignação e a denúncia são sempre necessárias na luta contra o preconceito racial.

Segue o link para baixar o filme completo: 





1 - Rafaela Rabesco é Socióloga e mestranda no Programa de Pós-graduação em Sociologia da UFSCar. Atua como professora de Música e Canto no Programa de Educação Integral do município de Araraquara. Além disso, elabora e executa projetos educacionais de musicalização africana e indígena voltados à formação continuada de professores da rede pública de ensino.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Os perigos de uma sociedade racista, segregada e intolerante – O que está por vir?

Um jovem negro é preso pelo pescoço a um poste, sem roupas e exposto como um exemplo ou uma lição para os “outros”. Quem são esses “outros”? São negros? São assaltantes? Ou, são negros assaltantes? O que está por de trás deste acontecimento? Creio que a raiz desta questão se encontra nos fluxos e refluxos do problema racial brasileiro. As imagens e a condição que se encontrava o jovem negro são revoltantes.

Mas antes que digam que eu estou defendendo os bandidos, os criminosos e coisa e tal... Confesso que não é isso. Nem será preciso os argumentos reacionários e torpes de que: “achou ruim? Leve ele para sua casa.” “queria ver se fosse com você...” e etc..
Dito isso, ainda me inquieta mais uma pergunta e, creio eu, que é uma das mais relevantes para entendermos a raiz daquele problema racial brasileiro que me referi anteriormente, alguém já viu uma cena ou um fato como este acontecer com um criminoso ou bandido branco? Eu nunca vi.
Não me entendam mal. Eu não tenho nenhum interesse de incitar o “ódio racial” quando faço comparações diretas entre brancos e negros, sejam elas numa pergunta ou numa análise direta ou indireta. Digo-lhes isso, porque li aqui no blog, recentemente, um comentário feito por um “anônimo” que alegava que “nós negros” com este “processo de negretização” (se referindo às lutas do movimento negro, com as ações afirmativas e outras reivindicações, creio eu) só desencadearemos o “ódio racial”. Essa não é a minha intenção. E para tal afirmação, utilizo uma lembrança feita pela Rafaela Rabesco, em resposta ao “anônimo”: “Sejamos realistas, levemos em conta a história e analisemos as questões com a serenidade que elas merecem. Guerra discursiva? Ódio? Isso tudo é provocado por quem fala das injustiças ou por quem as provoca? Não cometa o pior dos erros, não confunda o opressor com o oprimido.”
Feito as ressalvas, segurei em frente com o que me propus a fazer hoje que é pensar o porquê que estamos nos deparando cada vez mais com acontecimentos como estes que expõem a figura do sujeito, ou, do homem negro a determinados tipos de situações que muitas vezes são desencadeadas por um sentimento racista e preconceituoso mesmo de forma inconsciente ou até mesmo consciente.
Abro um parêntese para expor uma expressão que muitos já devem ter ouvido: “Branco correndo na rua é atleta. Preto correndo na rua é ladrão”. Essa expressão não tem nada de inocente e nos diz muito sobre como estas “brincadeiras ou piadas” fomentam o racismo que é extravasado em situações do nosso cotidiano.
Peguemos o caso desse garoto que foi exposto e tratado de uma maneira reprovável. A ideia de deixá-lo sem roupas, preso pelo pescoço com um instrumento que nos remete aos grilhões, muito usado no período da escravidão, cortar a sua orelha com uma faca, tudo isso, me parece mais uma forma de tortura e violência que nos remete às violências sofridas pelos escravos. Será esta a maneira correta de inibir ou agir contra um assalto? Por que será que esta ideia surgiu e foi praticada sem o mínimo de vergonha ou culpa? O rapaz que postou a foto do jovem negro ainda diz que isso é “pra que sirva de lição”. Que lição é essa?
Então, nos deparamos com o caso deste jovem do Rio de Janeiro que a foto não deixa dúvidas de que foi uma prática racista. Além desse, já houve outro caso em que um homem negro “com problemas psiquiátricos” foi amarrado num poste. E por último, existiu outro caso, que não está diretamente ligado a esses dois que acabei de apontar, mas que também não é muito diferente deles, estou me referindo ao caso do rapaz neonazista que tentou enforcar um negro morador de rua, em Belo Horizonte.


Pensa que acabou! Ainda tem mais... E o caso do garoto que por não ter conseguido aprovação no vestibular, julgou que seu insucesso foi decorrente das cotas raciais para negros e decidiu fazer uma postagem, num site de vendas pela internet, colocando à venda crianças negras e homens negros a R$ 1,00.
Com esses casos, eu expresso a minha preocupação de que podemos estar entrando num processo de deflagração explicita de intolerância racial, agressões e violências raciais cada vez mais presentes em nossa sociedade.
Compartilharei o trailer do filme “A Outra História Americana” com o intuito de chamar à atenção para um momento do trailer em que o pai do Derek Vinyard (Edward Norton) fala da raiva que sente por ter como chefe um negro. Neste momento, ele fala com ódio das Ações Afirmativas e vê esta política como uma afronta aos brancos. Com isso, Derek herda de seu pai um ódio pelos negros.



Este filme nos abre inúmeras possibilidades para discutir a questão racial, o ódio racial que é tensionado e como que é alimentado um conhecimento equivocado sobre as Ações Afirmativas. É aí que mora o perigo. Uma má interpretação sobre tal política pode gestar dentro de muitos jovens e adultos uma raiva contra um grupo, neste caso, os negros. 



Derek Vinyard (Edward Norton) herdou o ódio diretamente de seu pai. Acreditando na ideologia nazista da supremacia de uma “raça pura”, o jovem se une a uma gangue de cabeças raspadas e mata dois homens negros. Seu destino é a prisão — e, somente quando está atrás das grades, Derek começa a entender como o mundo é de fato e como esteve agindo de maneira imbecil nos últimos anos. Quando finalmente é libertado, Derek descobre que seu irmão mais novo, Danny, o considera uma espécie de herói, um mártir para o “movimento”. Vendo o irmão imerso na mesma teia de racismo e violência que outrora quase destruiu sua vida, Derek vai tentar dar fim ao elo de ódio que corre nas veias de sua própria família. (Fonte: Assistir filmes online)

O problema não está no fato da implantação dessa política, aliás, é um direito que não se pode mais revogar. Só tem que avançar. Todavia, não podemos nos descuidar do processo educativo e de conscientização da população branca (Salvo algumas exceções, ainda existem pessoas que não compreendem a importância dessa política) e, também, de alguns negros e pardos, que infelizmente ainda desconhecem o verdadeiro propósito dela.
Entendo que o processo de Ação Afirmativa dos Estados Unidos (pensando num âmbito político-institucional) começou com o Lincoln com a sua luta e articulação para aprovação da 13º emenda que extinguia a escravidão na América do Norte. Mais à frente aconteceram os embates pelo direito ao voto (com a aprovação da 15º emenda), daí em diante, integrar o negro na sociedade norte-americana através das políticas de Ação Afirmativa se tornou uma condição sine qua non. Do público ao setor privado.
Depois de três séculos e meio de escravidão, começamos o nosso “verdadeiro” processo de integração dos negros em nossa sociedade com a política de Ação Afirmativa, especificamente, a política de cotas raciais. Encontramos-nos, hoje, em extensos debates sobre a implantação de cotas nos concursos públicos e, vamos buscando estender para o setor privado a questão de uma maior presença de negros em determinados cargos de poder.

Não tenho dúvidas que a política de Ações Afirmativas para os negros vem dando certo. Mas também vejo como um fator extremamente necessário o contínuo processo de formação para Educação das Relações Étnico-Raciais em amplos setores da nossa sociedade. Talvez com um amplo e profundo processo de formação, como esse que acabei de citar, nos possibilite, num futuro próximo, cidadãos que ao verem um preto correndo na rua não o associem com um ladrão. Que ao deterem um jovem negro por tentativa de roubo não precisem violentá-lo e prende-lo como acabamos de ver na foto. Que pessoas ao se julgarem “justiceiros ou justiceiras” reconheçam no “outro”, no negro, os princípios de igual dignidade. Por fim, fiquemos de olhos bem abertos e com os sentidos bem alertas para que não sejamos pegos de surpresa com o que ainda está por vir.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O tão esperado beijo gay aconteceu... E onde foi parar a representação dos mais de 50% de negros da população brasileira?

Quando busquei uma imagem sobre negros e negras na novela Amor à Vida no Google, só apareceu esta imagem e a imagem do menino negro que foi adotado por Niko (Thiago Fragoso). Será um problema do Google? Preferi esta imagem por dialogar mais com a minha reflexão.


A novela teve seus altos e baixos, talvez, mais baixos do que altos. Mas será que podemos ver o beijo do Félix (Mateus Solano) com o Niko (Thiago Fragoso), no final da novela, como um ganho no processo de desconstrução do pensamento histórico-social machista e heterossexista da sociedade brasileira? Esperemos para ver os desdobramentos na vida real.

O que sei, ao observar o enredo da novela, seja pelas redes sociais, seja assistindo, é que a sociedade representada ou que está presente na construção das suas relações sociais “ficcionais”, quase não existem negros.

Presenciamos protestos feitos durante o desenrolar da trama justamente por não existirem negros médicos e por quererem violentar a criança negra, ao desejar raspar o seu lindo cabelo Black Power, visto como uma estética não aceitável pelo público da novela (talvez por racismo e/ou desconhecimento da estética negra). E vou além nesta minha crítica, onde estão os mais de 50% de negros da nossa sociedade? Eles não fazem parte do grupo de amigos dos personagens da novela? Eles não fazem parte da vizinhança? Onde eles estão?


No contexto do hospital, depois de muita briga e muita crítica nas redes sociais, colocaram dois personagens negros. Uma negra neurocirurgiã e um negro psiquiatra. Se não me falha a memória só os vi em dois ou três capítulos (ou até menos). E as famílias negras? Você viu alguma? Eu não vi.


O que apareceu no último capítulo da novela foi um presídio repleto de mulheres negras e um negro corrupto que aceitou suborno para ajudar na fuga de algumas presas. É este o papel que nos cabe na representação social que a novela quis mostrar? Ver gays brancos e ricos é mais “palatável”? Mais tolerável? Ou não? Ou estou delirando e o fato de não demonstrar a população negra nas tramas da novela como deveria foi só uma questão de escolha, uma simples opção? Só o fato de ter um menino negro sendo adotado por dois homens gays, brancos e ricos, já alimentou muitas críticas sobre manter ou não manter o cabelo Black da criança que, na minha opinião, era só pretexto para justificar a raiva de não entender como os dois personagens brancos e ricos adotam um menino negro.


Agora, imaginem o Félix (Matheus Solano) apaixonado e dividindo cenas românticas com um personagem negro? Será esse o próximo passo das telenovelas brasileiras? Será que rola?



Sei que não se pode exigir muito das novelas, mas o mínimo que se pode querer é que elas sejam fiéis, na medida do possível, ao verdadeiro contexto social que estamos vivendo. Ainda existem muitos jovens sendo espancados, perseguidos e assassinados por causa de uma orientação sexual que vai na contracorrente da heteronormatividade, existem negros sendo discriminados e que estão numa dispendiosa luta por mais respeito e igual dignidade nas relações sociais que enfrentam no dia a dia. Agora, se juntarmos alguns dos principais eixos que a novela buscou abordar: orientação sexual, raça, religiosidade e classe social, saberemos que a realidade mostrada pela novela, por mais que apareça revestida de “boas intenções”, está muito longe da realidade que estamos vivendo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Uma lição de discriminação – “Eles têm mais tendência a roubar, a ser maus e violentos.”



Compartilho hoje com vocês um documentário muito importante para nós professores e professoras, pais e mães, alunos e alunas e estudantes de modo geral. O nome do documentário é “Uma lição de discriminação”.

Uma menina me chamou à atenção ao descrever como foi passada para ela a idealização dos negros.  “Eles têm mais tendência a roubar, a ser maus e violentos.”





Segue a descrição postada no youtube:

Desde o começo dos tempos, os seres humanos têm tendência a formar grupos, excluindo assim estranhos, inimigos, e qualquer um que seja diferente. Podemos não exatamente incentivá-las, mas tais atitudes tornam-se arraigadas a partir de uma idade muito precoce.
Este documentário acompanha uma experiência em uma escola primária que mostra o quão rapidamente as crianças podem assimilar a discriminação e todas as suas repercussões. Uma professora do ensino primário em Quebec conduziu um experimento no qual ela afirmou que estudos científicos provam que as crianças menores são geralmente mais criativas e inteligentes, e as mais altas são desajeitadas e preguiçosas. Ela dividiu sua turma com base nessas suposições. No dia seguinte, ela virou o jogo e fez com que se invertessem os papéis.
Algumas crianças de nove anos de idade entenderam que era tudo um jogo, mas para o resto acabou por ser uma experiência muito poderosa.
Produção: Radio-Canada 2006.


Postado essa descrição do documentário, sinto que podemos falar muito mais dele. Ele realmente nos dá muitas possibilidades para discutirmos sobre como se constrói, se sente e afeta o “outro” que é diferente. O diferente do que é colocado como “padrão” ou normal em muitas sociedades, inclusive a nossa. No caso do experimento realizado pela professora com as autorizações necessárias por parte dos pais e da escola, se resume em fazer as crianças sentirem os efeitos da discriminação para que aprendam como se sente ou sofre uma pessoa ou criança discriminada. Dito isso, faço uma ressalva sobre o fato de na sala de aula não existir nenhuma criança negra. Ah! Nem a professora é negra.


Como vocês viram no vídeo, as crianças depois de divididas, especificamente, as crianças mais altas, que eram vistas como inferiores quando comparados com as crianças baixas, tiveram expostas suas características físicas, psíquicas e até comportamentais expostas, referenciadas como algo ruim. Logo, por serem altas, começaram a se sentir excluídas e inferiorizadas. Numa das passagens do documentário uma das crianças diz que ficou sem concentração, pois, sabia que o fato de ir ao quadro resolver um exercício, solicitado pela professora, desencadearia a zombaria dos seus colegas. Resultado, ele não conseguiu fazer a atividade como se deveria. E, se sentiu muito mal.


O que quero chamar à atenção, para que nós reflitamos com o que assistimos no documentário, é que a sala não tinha nenhuma criança negra, caso queiramos enfatizar a diferença como algo em questão. Mas, mesmo assim, com crianças brancas tendo destacadas características que as inferiorizavam, o resultado (e as dores que sentiram) foi surpreendente. Elas sentiram o que muitas crianças negras sentem todos os dias na sala de aula, na rua, nas relações com alguns pais de coleguinhas quando evitam convidá-lo para ir à casa dos seus filhinhos brancos. Elas sentiram que a discriminação não nos faz bem. Ou seja, o experimento da professora nos mostrou que a discriminação causa danos que se não nos atentarmos para eles logo nos primeiros anos de vida dessas crianças, na escola e em casa, teremos uma reprodução ou uma retroalimentação de cidadãos racistas e preconceituosos.


Na sociedade que vivemos podemos ter bastante exemplos do que quero dizer. Basta lembrarmos o caso do jovem que ao ter um resultado negativo no vestibular, julgou como fonte da sua reprovação as cotas raciais. Com esta insatisfação, o seu racismo, “talvez” adormecido, aflorou. Ele postou no site do mercado livre a venda de negros pela quantia de R$ 1,00. Essa sua atitude nos diz muito.


Mas voltemos à discussão do documentário, será que vocês, quando terminarem de ver o vídeo, conseguem imaginar os males que a discriminação causa nas vidas das crianças negras na sala de aula?


Por exemplo: Que menina linda! Olha como esse cabelo tão loirinho a deixa parecida com uma princesa. Linda! Olha estes olhos azuis. Minha nossa... Aí, atrás desta criança tem uma menina negra que em nada se parece com a menina branca com “cara” de princesa (pensamento de princesa no sentido e modelo eurocêntrico branco). O que se deve fazer numa hora dessas? São em momentos como estes que a discriminação se instala e causa seus danos. Pensemos nisso!


Sei que muitos não têm a intenção de gerar ou incitar a discriminação, mas ela está no nosso cotidiano e nas mínimas expressões que utilizamos. Sejam elas na relação familiar ou nos exemplos dentro da escola. Temos que combater sempre. Sei que os avanços advindos da implantação da lei 10.639/03 ainda não são suficientes. Queremos mais. Pois sabemos que entre a lei e a sua implementação, na prática docente, existe uma distância que ainda persiste em se fazer presente.



Por fim, ao ver o choro daquelas crianças tão críticas e indignadas com a discriminação e seus males, pensei nos milhares, ou até, nos milhões de crianças negras que estão sendo violentadas todos os dias em nossas escolas e, infelizmente, não podemos acabar ou extinguir essa realidade de uma vez por todas. Finalizo, emanando o desejo e a energia para que as reflexões que surgirão com este documentário possibilitem novas ações transformadoras em nossas salas de aula.