Objetivos e intenções do Onda Negra.

O Onda Negra surge como um desejo de exteriorização de algumas reflexões que estão diretamente ligadas à questão racial. Almejamos com este espaço a problematização e discussão sobre temas como o racismo, o preconceito racial e a discriminação. Possivelmente, veremos também discussões sobre processos que apontam para uma predominância da desigualdade social e racial no nosso país.

Em alguns momentos, apresentaremos sugestões, análises e reflexões de filmes que abordam diretamente ou indiretamente a temática racial, ou, que dialoguem com a mesma. Salientamos que dentro desta proposta não deixaremos de abordar, por exemplo: a questão de gênero, os processos do mundo do trabalho e a questão racial, a questão da violência racial e, principalmente, alguns processos que envolvam reparação e ganhos para a população negra, como no caso das políticas de Ações Afirmativas.

Por último, explicamos que a origem do nome Onda Negra foi pensado a partir do livro da Celia de Azevedo, "Onda negra, medo branco". Nesse livro, a autora estabelece um intenso debate em torno das "questões senhoriais travadas por abolicionistas e imigrantistas ao longo do século dezenove. Decerto esse debate ainda se arrastaria pelo tempo não fosse a intervenção dos próprios escravos com suas ações autônomas e violentas, aguçando os medos da 'onda negra', imagem vívida forjada no calor da luta por elites racistas."

Sendo assim, julguei pertinente fazer uma alusão a esta "onda negra" que se tratava do medo das elites com os retrospectos das lutas anti-escravistas (ou por libertação dos negros escravizados) como por exemplo, a Revolução Haitiana; para tratar dos problemas contemporâneos que envolvem a condição do negro em nossa sociedade. Enquanto as lutas ganham força por ganhos de direitos, por igualdade de condições no mercado de trabalho em relação aos brancos, por políticas de reparação e de inclusão com as Ações Afirmativas, percebe-se que todo esse movimento ainda desperta em alguns grupos da nossa sociedade um incômodo, uma desconfiança e a meu ver um medo.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

De Robinson a Tinga: o racismo entra em campo.




Por Rafaela Rabesco¹ e Silvio Matheus

A história de Paulo Cesar, o Tinga e a polêmica sobre a atitude extremamente racista demonstrada pela torcida peruana do time Real Garcilaso, no jogo da libertadores, faz lembrar a história de Jackie Robinson, o primeiro negro norte-americano a jogar na liga principal de beisebol pelo Brooklyn Dodgers em 1946.

No filme “42: A história de uma lenda”, lançado no ano passado, cenas como as vividas por Tinga são multiplicadas a cada cidade visitada pelo time, a cada vitória e a cada participação do jogador. Sua casa é rondada por racistas, recados são dados pessoalmente, ameaças feitas por telefone e por cartas são colecionadas pelo empresário do clube, Branch Rickey. Esse senhor entrou também para a história ao exigir a presença de Jackie no elenco principal dos Dodgers, pois achava que os atletas negros eram os melhores no esporte que ele amava. Branch também foi importante no enfrentamento e na luta contra os membros do time, jogadores e técnicos que insistiam em manter o racismo dentro e fora de campo.

A hostilidade, as ameaças e as agressões verbais eram constantes na vida de Robinson. Não eram só enfrentadas no campo, mas na sociedade extremamente segregada e racista. O racismo e a violência eram declarados. Mas a força e a consciência de Robinson foram sendo alimentadas ao perceber que ele se tornava um grande exemplo de coragem, não só por ser o único atleta negro num time de brancos, numa liga ou competição onde todos os jogadores e envolvidos diretamente eram brancos, mas por enfrentar todas essas adversidades que significavam muito para a população negra e, em especial, para muitas crianças negras e brancas que sonhavam um dia em ser um grande jogador como ele.

Vejam o trailer que apesar de não estar legendado, vale muito a pena.



O que há de comum na história de Robinson, ícone do esporte norte-americano, e a história de vida do jogador Tinga (ver reportagem), muito respeitado e admirado no futebol nacional e internacional é o racismo que perpassa a história de ambos. Ainda que devamos guardar as devidas proporções sobre os fatos, o tempo histórico e, principalmente, o contexto social vivido por estes dois atletas negros.

Lá atrás Robinson também era chamado de macaco. Mais de 60 anos se passaram e vimos o Tinga ser também chamado de macaco por aqui. Vemos que os insultos racistas perpassam o tempo e o espaço. 

Segue um trecho do filme para que sintam a atmosfera enfrentada por Robinson. 



Foi aqui, tanto no Brasil quanto na America Latina, que o Tinga foi ofendido e discriminado. Na nossa América Latina que tanto sofreu os males da colonização. Uma colonização de exploração onde violência, estupros e genocídios foram cometidos. Tornaram-nos alvos de estereótipos que nos inferiorizavam e hoje, com muita luta, estamos conseguindo mudar algumas realidades e concepções. Mas, mesmo assim, uma parcela de um povo cuja ancestralidade descende dos indígenas que tanto resistiram às mazelas da colonização espanhola, uma das mais violentas da América, repetiram e reafirmaram a prática racista.

Não! Não estamos em 1946, nem 1956, nem sequer 1996. Em plenos 2014 do século XXI, Tinga foi vítima do racismo execrável, no campo que é seu meio de vida, onde inegavelmente e à revelia de qualquer argumento racista possível, ele desfere seu talento, sua humanidade, seu trabalho. E ainda sim, o campo é apenas uma parte, uma só parcela, uma pequena mostra da sociedade que produz e reproduz o racismo cotidiano que perdura e que deve ser sempre desmascarado, confrontado e punido.


Assim, a partir desses dois exemplos históricos de que o racismo precisa ser combatido com determinação dentro e fora dos gramados, esperamos inspirar a todos para que não vejamos mais cenas e atitudes como aquelas (da década de 1940 ou do ano 2014), além de ressaltar que a indignação e a denúncia são sempre necessárias na luta contra o preconceito racial.

Segue o link para baixar o filme completo: 





1 - Rafaela Rabesco é Socióloga e mestranda no Programa de Pós-graduação em Sociologia da UFSCar. Atua como professora de Música e Canto no Programa de Educação Integral do município de Araraquara. Além disso, elabora e executa projetos educacionais de musicalização africana e indígena voltados à formação continuada de professores da rede pública de ensino.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Os perigos de uma sociedade racista, segregada e intolerante – O que está por vir?

Um jovem negro é preso pelo pescoço a um poste, sem roupas e exposto como um exemplo ou uma lição para os “outros”. Quem são esses “outros”? São negros? São assaltantes? Ou, são negros assaltantes? O que está por de trás deste acontecimento? Creio que a raiz desta questão se encontra nos fluxos e refluxos do problema racial brasileiro. As imagens e a condição que se encontrava o jovem negro são revoltantes.

Mas antes que digam que eu estou defendendo os bandidos, os criminosos e coisa e tal... Confesso que não é isso. Nem será preciso os argumentos reacionários e torpes de que: “achou ruim? Leve ele para sua casa.” “queria ver se fosse com você...” e etc..
Dito isso, ainda me inquieta mais uma pergunta e, creio eu, que é uma das mais relevantes para entendermos a raiz daquele problema racial brasileiro que me referi anteriormente, alguém já viu uma cena ou um fato como este acontecer com um criminoso ou bandido branco? Eu nunca vi.
Não me entendam mal. Eu não tenho nenhum interesse de incitar o “ódio racial” quando faço comparações diretas entre brancos e negros, sejam elas numa pergunta ou numa análise direta ou indireta. Digo-lhes isso, porque li aqui no blog, recentemente, um comentário feito por um “anônimo” que alegava que “nós negros” com este “processo de negretização” (se referindo às lutas do movimento negro, com as ações afirmativas e outras reivindicações, creio eu) só desencadearemos o “ódio racial”. Essa não é a minha intenção. E para tal afirmação, utilizo uma lembrança feita pela Rafaela Rabesco, em resposta ao “anônimo”: “Sejamos realistas, levemos em conta a história e analisemos as questões com a serenidade que elas merecem. Guerra discursiva? Ódio? Isso tudo é provocado por quem fala das injustiças ou por quem as provoca? Não cometa o pior dos erros, não confunda o opressor com o oprimido.”
Feito as ressalvas, segurei em frente com o que me propus a fazer hoje que é pensar o porquê que estamos nos deparando cada vez mais com acontecimentos como estes que expõem a figura do sujeito, ou, do homem negro a determinados tipos de situações que muitas vezes são desencadeadas por um sentimento racista e preconceituoso mesmo de forma inconsciente ou até mesmo consciente.
Abro um parêntese para expor uma expressão que muitos já devem ter ouvido: “Branco correndo na rua é atleta. Preto correndo na rua é ladrão”. Essa expressão não tem nada de inocente e nos diz muito sobre como estas “brincadeiras ou piadas” fomentam o racismo que é extravasado em situações do nosso cotidiano.
Peguemos o caso desse garoto que foi exposto e tratado de uma maneira reprovável. A ideia de deixá-lo sem roupas, preso pelo pescoço com um instrumento que nos remete aos grilhões, muito usado no período da escravidão, cortar a sua orelha com uma faca, tudo isso, me parece mais uma forma de tortura e violência que nos remete às violências sofridas pelos escravos. Será esta a maneira correta de inibir ou agir contra um assalto? Por que será que esta ideia surgiu e foi praticada sem o mínimo de vergonha ou culpa? O rapaz que postou a foto do jovem negro ainda diz que isso é “pra que sirva de lição”. Que lição é essa?
Então, nos deparamos com o caso deste jovem do Rio de Janeiro que a foto não deixa dúvidas de que foi uma prática racista. Além desse, já houve outro caso em que um homem negro “com problemas psiquiátricos” foi amarrado num poste. E por último, existiu outro caso, que não está diretamente ligado a esses dois que acabei de apontar, mas que também não é muito diferente deles, estou me referindo ao caso do rapaz neonazista que tentou enforcar um negro morador de rua, em Belo Horizonte.


Pensa que acabou! Ainda tem mais... E o caso do garoto que por não ter conseguido aprovação no vestibular, julgou que seu insucesso foi decorrente das cotas raciais para negros e decidiu fazer uma postagem, num site de vendas pela internet, colocando à venda crianças negras e homens negros a R$ 1,00.
Com esses casos, eu expresso a minha preocupação de que podemos estar entrando num processo de deflagração explicita de intolerância racial, agressões e violências raciais cada vez mais presentes em nossa sociedade.
Compartilharei o trailer do filme “A Outra História Americana” com o intuito de chamar à atenção para um momento do trailer em que o pai do Derek Vinyard (Edward Norton) fala da raiva que sente por ter como chefe um negro. Neste momento, ele fala com ódio das Ações Afirmativas e vê esta política como uma afronta aos brancos. Com isso, Derek herda de seu pai um ódio pelos negros.



Este filme nos abre inúmeras possibilidades para discutir a questão racial, o ódio racial que é tensionado e como que é alimentado um conhecimento equivocado sobre as Ações Afirmativas. É aí que mora o perigo. Uma má interpretação sobre tal política pode gestar dentro de muitos jovens e adultos uma raiva contra um grupo, neste caso, os negros. 



Derek Vinyard (Edward Norton) herdou o ódio diretamente de seu pai. Acreditando na ideologia nazista da supremacia de uma “raça pura”, o jovem se une a uma gangue de cabeças raspadas e mata dois homens negros. Seu destino é a prisão — e, somente quando está atrás das grades, Derek começa a entender como o mundo é de fato e como esteve agindo de maneira imbecil nos últimos anos. Quando finalmente é libertado, Derek descobre que seu irmão mais novo, Danny, o considera uma espécie de herói, um mártir para o “movimento”. Vendo o irmão imerso na mesma teia de racismo e violência que outrora quase destruiu sua vida, Derek vai tentar dar fim ao elo de ódio que corre nas veias de sua própria família. (Fonte: Assistir filmes online)

O problema não está no fato da implantação dessa política, aliás, é um direito que não se pode mais revogar. Só tem que avançar. Todavia, não podemos nos descuidar do processo educativo e de conscientização da população branca (Salvo algumas exceções, ainda existem pessoas que não compreendem a importância dessa política) e, também, de alguns negros e pardos, que infelizmente ainda desconhecem o verdadeiro propósito dela.
Entendo que o processo de Ação Afirmativa dos Estados Unidos (pensando num âmbito político-institucional) começou com o Lincoln com a sua luta e articulação para aprovação da 13º emenda que extinguia a escravidão na América do Norte. Mais à frente aconteceram os embates pelo direito ao voto (com a aprovação da 15º emenda), daí em diante, integrar o negro na sociedade norte-americana através das políticas de Ação Afirmativa se tornou uma condição sine qua non. Do público ao setor privado.
Depois de três séculos e meio de escravidão, começamos o nosso “verdadeiro” processo de integração dos negros em nossa sociedade com a política de Ação Afirmativa, especificamente, a política de cotas raciais. Encontramos-nos, hoje, em extensos debates sobre a implantação de cotas nos concursos públicos e, vamos buscando estender para o setor privado a questão de uma maior presença de negros em determinados cargos de poder.

Não tenho dúvidas que a política de Ações Afirmativas para os negros vem dando certo. Mas também vejo como um fator extremamente necessário o contínuo processo de formação para Educação das Relações Étnico-Raciais em amplos setores da nossa sociedade. Talvez com um amplo e profundo processo de formação, como esse que acabei de citar, nos possibilite, num futuro próximo, cidadãos que ao verem um preto correndo na rua não o associem com um ladrão. Que ao deterem um jovem negro por tentativa de roubo não precisem violentá-lo e prende-lo como acabamos de ver na foto. Que pessoas ao se julgarem “justiceiros ou justiceiras” reconheçam no “outro”, no negro, os princípios de igual dignidade. Por fim, fiquemos de olhos bem abertos e com os sentidos bem alertas para que não sejamos pegos de surpresa com o que ainda está por vir.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O tão esperado beijo gay aconteceu... E onde foi parar a representação dos mais de 50% de negros da população brasileira?

Quando busquei uma imagem sobre negros e negras na novela Amor à Vida no Google, só apareceu esta imagem e a imagem do menino negro que foi adotado por Niko (Thiago Fragoso). Será um problema do Google? Preferi esta imagem por dialogar mais com a minha reflexão.


A novela teve seus altos e baixos, talvez, mais baixos do que altos. Mas será que podemos ver o beijo do Félix (Mateus Solano) com o Niko (Thiago Fragoso), no final da novela, como um ganho no processo de desconstrução do pensamento histórico-social machista e heterossexista da sociedade brasileira? Esperemos para ver os desdobramentos na vida real.

O que sei, ao observar o enredo da novela, seja pelas redes sociais, seja assistindo, é que a sociedade representada ou que está presente na construção das suas relações sociais “ficcionais”, quase não existem negros.

Presenciamos protestos feitos durante o desenrolar da trama justamente por não existirem negros médicos e por quererem violentar a criança negra, ao desejar raspar o seu lindo cabelo Black Power, visto como uma estética não aceitável pelo público da novela (talvez por racismo e/ou desconhecimento da estética negra). E vou além nesta minha crítica, onde estão os mais de 50% de negros da nossa sociedade? Eles não fazem parte do grupo de amigos dos personagens da novela? Eles não fazem parte da vizinhança? Onde eles estão?


No contexto do hospital, depois de muita briga e muita crítica nas redes sociais, colocaram dois personagens negros. Uma negra neurocirurgiã e um negro psiquiatra. Se não me falha a memória só os vi em dois ou três capítulos (ou até menos). E as famílias negras? Você viu alguma? Eu não vi.


O que apareceu no último capítulo da novela foi um presídio repleto de mulheres negras e um negro corrupto que aceitou suborno para ajudar na fuga de algumas presas. É este o papel que nos cabe na representação social que a novela quis mostrar? Ver gays brancos e ricos é mais “palatável”? Mais tolerável? Ou não? Ou estou delirando e o fato de não demonstrar a população negra nas tramas da novela como deveria foi só uma questão de escolha, uma simples opção? Só o fato de ter um menino negro sendo adotado por dois homens gays, brancos e ricos, já alimentou muitas críticas sobre manter ou não manter o cabelo Black da criança que, na minha opinião, era só pretexto para justificar a raiva de não entender como os dois personagens brancos e ricos adotam um menino negro.


Agora, imaginem o Félix (Matheus Solano) apaixonado e dividindo cenas românticas com um personagem negro? Será esse o próximo passo das telenovelas brasileiras? Será que rola?



Sei que não se pode exigir muito das novelas, mas o mínimo que se pode querer é que elas sejam fiéis, na medida do possível, ao verdadeiro contexto social que estamos vivendo. Ainda existem muitos jovens sendo espancados, perseguidos e assassinados por causa de uma orientação sexual que vai na contracorrente da heteronormatividade, existem negros sendo discriminados e que estão numa dispendiosa luta por mais respeito e igual dignidade nas relações sociais que enfrentam no dia a dia. Agora, se juntarmos alguns dos principais eixos que a novela buscou abordar: orientação sexual, raça, religiosidade e classe social, saberemos que a realidade mostrada pela novela, por mais que apareça revestida de “boas intenções”, está muito longe da realidade que estamos vivendo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Uma lição de discriminação – “Eles têm mais tendência a roubar, a ser maus e violentos.”



Compartilho hoje com vocês um documentário muito importante para nós professores e professoras, pais e mães, alunos e alunas e estudantes de modo geral. O nome do documentário é “Uma lição de discriminação”.

Uma menina me chamou à atenção ao descrever como foi passada para ela a idealização dos negros.  “Eles têm mais tendência a roubar, a ser maus e violentos.”





Segue a descrição postada no youtube:

Desde o começo dos tempos, os seres humanos têm tendência a formar grupos, excluindo assim estranhos, inimigos, e qualquer um que seja diferente. Podemos não exatamente incentivá-las, mas tais atitudes tornam-se arraigadas a partir de uma idade muito precoce.
Este documentário acompanha uma experiência em uma escola primária que mostra o quão rapidamente as crianças podem assimilar a discriminação e todas as suas repercussões. Uma professora do ensino primário em Quebec conduziu um experimento no qual ela afirmou que estudos científicos provam que as crianças menores são geralmente mais criativas e inteligentes, e as mais altas são desajeitadas e preguiçosas. Ela dividiu sua turma com base nessas suposições. No dia seguinte, ela virou o jogo e fez com que se invertessem os papéis.
Algumas crianças de nove anos de idade entenderam que era tudo um jogo, mas para o resto acabou por ser uma experiência muito poderosa.
Produção: Radio-Canada 2006.


Postado essa descrição do documentário, sinto que podemos falar muito mais dele. Ele realmente nos dá muitas possibilidades para discutirmos sobre como se constrói, se sente e afeta o “outro” que é diferente. O diferente do que é colocado como “padrão” ou normal em muitas sociedades, inclusive a nossa. No caso do experimento realizado pela professora com as autorizações necessárias por parte dos pais e da escola, se resume em fazer as crianças sentirem os efeitos da discriminação para que aprendam como se sente ou sofre uma pessoa ou criança discriminada. Dito isso, faço uma ressalva sobre o fato de na sala de aula não existir nenhuma criança negra. Ah! Nem a professora é negra.


Como vocês viram no vídeo, as crianças depois de divididas, especificamente, as crianças mais altas, que eram vistas como inferiores quando comparados com as crianças baixas, tiveram expostas suas características físicas, psíquicas e até comportamentais expostas, referenciadas como algo ruim. Logo, por serem altas, começaram a se sentir excluídas e inferiorizadas. Numa das passagens do documentário uma das crianças diz que ficou sem concentração, pois, sabia que o fato de ir ao quadro resolver um exercício, solicitado pela professora, desencadearia a zombaria dos seus colegas. Resultado, ele não conseguiu fazer a atividade como se deveria. E, se sentiu muito mal.


O que quero chamar à atenção, para que nós reflitamos com o que assistimos no documentário, é que a sala não tinha nenhuma criança negra, caso queiramos enfatizar a diferença como algo em questão. Mas, mesmo assim, com crianças brancas tendo destacadas características que as inferiorizavam, o resultado (e as dores que sentiram) foi surpreendente. Elas sentiram o que muitas crianças negras sentem todos os dias na sala de aula, na rua, nas relações com alguns pais de coleguinhas quando evitam convidá-lo para ir à casa dos seus filhinhos brancos. Elas sentiram que a discriminação não nos faz bem. Ou seja, o experimento da professora nos mostrou que a discriminação causa danos que se não nos atentarmos para eles logo nos primeiros anos de vida dessas crianças, na escola e em casa, teremos uma reprodução ou uma retroalimentação de cidadãos racistas e preconceituosos.


Na sociedade que vivemos podemos ter bastante exemplos do que quero dizer. Basta lembrarmos o caso do jovem que ao ter um resultado negativo no vestibular, julgou como fonte da sua reprovação as cotas raciais. Com esta insatisfação, o seu racismo, “talvez” adormecido, aflorou. Ele postou no site do mercado livre a venda de negros pela quantia de R$ 1,00. Essa sua atitude nos diz muito.


Mas voltemos à discussão do documentário, será que vocês, quando terminarem de ver o vídeo, conseguem imaginar os males que a discriminação causa nas vidas das crianças negras na sala de aula?


Por exemplo: Que menina linda! Olha como esse cabelo tão loirinho a deixa parecida com uma princesa. Linda! Olha estes olhos azuis. Minha nossa... Aí, atrás desta criança tem uma menina negra que em nada se parece com a menina branca com “cara” de princesa (pensamento de princesa no sentido e modelo eurocêntrico branco). O que se deve fazer numa hora dessas? São em momentos como estes que a discriminação se instala e causa seus danos. Pensemos nisso!


Sei que muitos não têm a intenção de gerar ou incitar a discriminação, mas ela está no nosso cotidiano e nas mínimas expressões que utilizamos. Sejam elas na relação familiar ou nos exemplos dentro da escola. Temos que combater sempre. Sei que os avanços advindos da implantação da lei 10.639/03 ainda não são suficientes. Queremos mais. Pois sabemos que entre a lei e a sua implementação, na prática docente, existe uma distância que ainda persiste em se fazer presente.



Por fim, ao ver o choro daquelas crianças tão críticas e indignadas com a discriminação e seus males, pensei nos milhares, ou até, nos milhões de crianças negras que estão sendo violentadas todos os dias em nossas escolas e, infelizmente, não podemos acabar ou extinguir essa realidade de uma vez por todas. Finalizo, emanando o desejo e a energia para que as reflexões que surgirão com este documentário possibilitem novas ações transformadoras em nossas salas de aula.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Por um 2014 sem racismo!

Hoje, penúltimo dia do ano de 2013, não esperava que tivesse algo para escrever ou relatar. Eis que o danado e o famigerado do racismo deu o ar da graça mais uma vez. Foi lamentável. Compartilharei com vocês...


Numa saída rápida ao centro da cidade de Araraquara, eu e minha companheira decidimos dar uma passada no Shopping Lupo para comprar algumas coisas que precisávamos. Nessa rápida incursão, não pude deixar de pensar nos acontecimentos dos “Rolezinhos” ao observar os olhares dos seguranças para mim, mas segui adiante... Eu e minha companheira decidimos nos separar, para não passarmos muito tempo lá dentro. Traçado nosso objetivo, segui ao banco, foi lá onde tudo aconteceu.


Ao entrar no banco para fazer um saque rapidamente me deparo com uma jovem e uma senhora que começava a fazer sua operação no caixa rápido. Eu olhei rapidamente para ela e fui fazer a minha transação. Como já estou acostumado aos olhares desconfiados de algumas pessoas, não pude me furtar de olhar para ver qual seria a reação delas. Primeiramente a jovem me olhou e já se aproximou da senhora, em seguida, a senhora percebendo a aproximação repentina da jovem olhou para o lado para ver o que se passava. Advinha o que ela viu? Um homem negro, de bermuda e camiseta sem ser de marca, com pequenos furos infelizmente pelo desgaste do tempo e, de dreadlocks. Sei que em boa parte desse país essa não é uma imagem que se espera de um “homem de bem”, como também sei que essa é uma percepção retrógrada. Na realidade, para elas (a jovem e a senhora), eu oferecia perigo.


A senhora rapidamente tirou seu cartão e disse em alto e bom tom “esse terminal sempre dá problema...”. Saiu e foi para outro terminal bem longe de mim. Como gosto de pagar para ver, terminei a minha operação no caixa do banco e fui testar o caixa que ela disse estar com problemas. Adivinhem o que aconteceu meus caros amigos e minhas caras amigas? O caixa eletrônico funcionou perfeitamente. Sem mais delongas e sem adentrar em mais detalhes, fica mais do que evidente o que se passou nessa situação que vivenciei.


Racismo! O imaginário preconceituoso delas alertava: “Tem um negro aqui do lado e ele pode estar nos espreitando para nos assaltar”. Até quando viveremos cenas e situações como estas?


Por isso, decidi deixar este relato como última postagem do ano e, esta mensagem a seguir que, ao mesmo tempo, expressa o meu desejo de que o ano de 2014 seja de mais conquistas para a população negra, aqueles que não se identificam como negros ou que são brancos possam ter mais consciência do que está em pauta nas nossas lutas e reivindicações. Por fim, que tenhamos mais anos novos sem racismo!



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Opiniões preconceituosas de uma “falácia midiática pseudo intelectualizada”


O nome dela é Rachel Shererazade. Essa apresentadora âncora do jornal do SBT ficou conhecida por um vídeo em que tecia uma argumentação calorosa contra a corrupção e os mandos e desmandos da família Sarney no Maranhão. Até aí tudo bem! Quem não se empolgou com uma apresentadora de tele jornal com a coragem de fazer o que ela fez? Mas o pior vem a galope... Doce ilusão acreditar que por ela ser crítica num momento especifico sobre questões da política e da corrupção brasileira, ela, por tabela, teria uma consciência realmente crítica dos fenômenos sociais que vem assolando a grande parcela da população deste país que é pobre, moradores de periferia e negros.

Ela realmente mostrou quem é. Ela nos mostrou que não passa de mais uma “pseudo-crítica” que julga entender de determinados problemas do nosso país, como a questão da segregação espacial, discriminação racial, racismo, desigualdade social, dentre outros assuntos correlatos, mas na verdade ela não passa de uma “falácia midiática pseudo intelectualizada”. Ela demonstrou uma concepção que não é muito diferente da elite racista que acha que lugar de pobre é na periferia mesmo e que ir ao shopping é um direito que não lhes cabe. Concepções de uma elite branca abarrotada de visões estereotipadas, preconceituosas e racistas.


Vejam o vídeo e os absurdos pronunciados por ela:




“Não precisa ser sociólogo para perceber que a molecada que marca esses encontros quer, acima de tudo, reafirmar sua existência. E mesmo alguns tumultos que possam causar têm a ver com isso. É como se gritassem a plenos pulmões: “Ei, eu existo, pô!” Boa parte dos jovens negros e pobres da periferia nascem e morrem diariamente sem que o Estado esboce um bocejo de preocupação ou que o restante da sociedade fique sabendo” - Sakamoto.


Como o Sakamoto bem disse: não precisa ser um cientista social ou sociólogo para perceber a mensagem destes jovens que estão cansados da discriminação e dos olhares ofensivos quando tentam ir sozinhos ou em pequenos grupos nesses “espaços de luxo”. Por que esses jovens não podem fazer estes rolezinhos no shopping? A elite branca e rica tem medo dos arrastões? De assaltos? Esses problemas têm uma origem e têm cor? Eles persistem e não serão com comentários despreparados e preconceituosos, como os dessa apresentadora de tele jornal, que conseguiremos entender a raiz do problema social que estes jovens estão demonstrando para nós.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Ei seu polícia! O espaço é público e eu tenho o direito... – Cala boca marginal.

No artigo de hoje decidi tratar sobre duas questões que me chamaram à atenção nos últimos dias. A primeira diz respeito aos “arrastões” no Rio de Janeiro e a segunda, se refere aos jovens detidos num shopping center em Vitória quando procuravam se proteger de uma investida policial num baile funk. As análises e argumentações terão como ponto de partida as matérias que trataram de tais fatos.



Neste momento, peço que vejam o vídeo que mostra as cenas do arrastão no Rio de Janeiro.

O quê vem na sua cabeça ao ver essas cenas? Com certeza alguns sentimentos de raiva, de revolta, de injustiça e de vulnerabilidade tomarão nossas mentes e corpos. Mas, e se eu perguntar para quem serão direcionados esses sentimentos? Terá cabimento uma pergunta como essa? Quantas vítimas enxergaram no vídeo? Posso dizer que existem várias vítimas ali? Certamente sim. Vejo turistas sendo assaltados e agredidos. Ainda vejo jovens sendo agredidos, mas não assaltados. Vejo desespero e o não medo do perigo, do risco (guardem essas duas palavras que as retomarei depois). Espera um pouco! Esses jovens tem cor. Não se pode fazer uma análise e tentar discutir sem levar em conta a cor daqueles jovens no vídeo. Então, vi vários jovens negros sendo agredidos e agredindo. Alguns tentando roubar e outros tentando ajudar as possíveis vítimas do assalto. Essas vítimas também tem cor. Eram brancas, aparentemente turistas.



Muitos indignados dirão: bando de vagabundos por que não vão procurar um emprego. Ficam querendo roubar. Querem vida fácil. Saem das favelas e vem nos tirar o sossego aqui na “nossa praia”. Opa! Mas a praia não é um espaço público? Como pode ser de uma minoria que é identificada como a elite carioca? Ao ler a matéria sobre “Praia democrática é mito” consegui entender o que já vinha pensando. Esse espaço não é democrático e não é público, pelo menos na prática. Pode até ser no discurso, mas, no dia a dia, eles são segregados. Não vejo palavra melhor que expresse essa divisão entre espaço de ricos e pobres, de brancos e negros.

Calma pessoal. Não estou querendo criar e nem ver como apartheid (como visto na África do Sul) ou como segregação racial (como foi nos Estados Unidos) esses conflitos no Rio de Janeiro. Entretanto, uma coisa é certa.  Não dá para vermos imagens como essas do vídeo, essas fotos e acharmos que isso é só um problema de falta de vontade para procurar emprego ou trabalho, ou uma bandidagem pura e simples. Sabemos muito bem que muitos desses jovens negros são discriminados em muitas etapas da sua vida.

Não quero justificar como algo positivo ou plausível os arrastões. E nem por na conta dos condicionantes históricos, que sempre imputou para o negro uma situação de marginalização no amplo sentido, a culpa por todos esses problemas. Dito isso, eu só quero que entendamos que o fato de um jovem negro sair da sua casa, na favela que fica na zona norte, para tentar assaltar turistas (brancos) nas praias da zona sul do Rio de Janeiro, tem muito a nos dizer. Não é uma simples coincidência de percurso ou trajeto. Existe algo que está para além do simbólico e que é real.

Há uma insistente desigualdade social e racial que dilacera a vida desses jovens negros. Não sou capaz de discorrer e nem quero fazer generalizações sobre suas motivações. Suas ações podem ser conscientes ou inconscientes. Mas que elas nos dizem muitas coisas, isso dizem. Geralmente os assaltantes premeditam, escolhem a melhor hora para o assalto para correr o risco de ser preso. Mas o que fazem estes jovens se lançarem na praia para tentar roubar correndo o risco de serem espancados e presos? Que falta de medo é esta ou, melhor dizendo, excesso de coragem que os tomam e os fazem agir com tanta indignação ou quem sabe até revolta? Creio que podemos também pensar nessa palavra revolta.





Vejam alguns trechos que julgo interessantes e que foram apresentados na matéria que citei logo acima.


No mundo inteiro, diziam que quem era civilizado ia à praia, que era elegante ir à praia. Chamo essa campanha na minha tese de “projeto praiano-civilizatório”, em que a praia deveria ser ocupada, sim, mas dentro de um modelo de “elegância e civilização”, como eles diziam. Essa campanha começa a surtir efeito a partir da década de 1920. As praias começam a encher, e isso acompanha o boom demográfico de Copacabana, a partir da década de 1940, quando o bairro começou a ser associado à nova elite do Rio. Esse primeiro momento de ocupação da praia, portanto, não é democrático. A praia era um espaço exclusivo das elites. Nem ônibus entrava ali ainda. (Grifo feito por mim)

[...] E agora todos tinham de lidar com as praias lotadas de trabalhadores. De tanto alardear a campanha, o desejo de ter acesso ao mundo elegante à beira-mar passa também a ser a vontade de diferentes camadas sociais. E aí, no início da década de 1930, começam a aparecer textos muitíssimo inflamados nos jornais reclamando dessa suposta “invasão”.

É no início da década de 1930 que a elite começa a recobrar a tal “exclusividade”?

Sim. Começam a se referir às pessoas até como “animais”. (Lê um trecho do jornal “Beira-Mar”, de 1929, que usa em sua pesquisa: “esse referver de criaturas, bem ou mal vestidas, limpas ou sujas, de todas as cores ou nacionalidades afeia os balneários, que se assemelham a praias habitadas de focas, não a praias vaidosamente chamadas de elegantes”, ou: “Não somos dos que entendem fazer de Copacabana um lugar exclusivo dos ricos e dos estetas, o que defendemos é a ordem e a beleza social das nossas praias. Sejamos progressistas, mas separando o joio do trigo”).


O conceito de praia democrática, então, é um mito?

Sim. É um mito. Um exemplo é a chegada do metrô ao Arpoador, que provocou aquela chiadeira da população, dizendo que ia virar “lugar de favelado”. E isso gerou, de fato, um deslocamento: há uma população segmentada na praia que é majoritariamente negra. O que no nosso país quer dizer majoritariamente pobre, por nossas peculiaridades históricas. Não existe a mistura. Se um grupo de meninos negros chega ao Posto 10 e começa a fazer uma festa, no dia seguinte as pessoas vão se mudar para o Posto 11. É fato.



Depois dessas passagens, vocês conseguem entender que foi construído um ideário, um discurso, ou até mesmo, uma prática que ainda tenta impedir que os jovens negros, pobres e favelados frequentem determinados locais.

A partir deste momento, que estamos falando de determinados locais, como podemos relacionar este fato que aconteceu no Rio de Janeiro com o fato que ocorreu em Vitória, com jovens negros detidos no shopping center?



Montagem feita pelo autor do blog. Qualquer semelhança não é mera coincidência. 


Antes lançarei algumas informações sobre o que se conhece hoje como a “indústria dos Shoppings Centers”.

“O segmento de shopping centers ocupa hoje papel relevante no comércio de varejo no Brasil. Desde a inauguração da primeira unidade (em 1966), o setor registra crescimento de cerca de 100% a cada quinquênio. Tal expansão ocorre mesmo em períodos de desaceleração da atividade econômica do país, o que indica que os shoppings centers estão, em muitos casos, substituindo o comércio de rua.” (trecho retirado da minha dissertação de mestrado).

Para a Associação Brasileira de Shoppings Centers (ABRASCE): “A indústria de Shopping Centers do Brasil fechou o ano de 2010 com um faturamento de R$ 87 bilhões, ante os R$ 74 bilhões de 2009, um aumento de 17,5% no período, segundo dados da Associação Brasileira de Shopping Centers - Abrasce. No ano passado foram inaugurados 16 empreendimentos, que, com os dez já inaugurados em 2011, somam 418 centros de compras desse tipo no Brasil.”.

Ao pensar no caso do shopping de Vitória, vocês conseguem perceber onde estes garotos foram tentar se proteger? Em que espaço, erroneamente pensado como público, eles foram buscar proteção? Essa indústria certamente está nas mãos de uma seleta minoria e nem preciso dizer qual a cor dessa minoria. Sendo assim, que paralelo podemos estabelecer com estes dois fatos que ocorreram?

Jovens negros, pobres, moradores de favelas e periferias, “mal vestidos” ou não vestidos como o ambiente lhes impõem, com o sentimento de que são indesejados e, consequentemente, sendo vistos como marginais e/ou criminosos. Quem dá o direito a essa minoria e ao imaginário social de associar glamour, luxo e poder aquisitivo com brancura (no sentido de qualidade de branco)? E se pensarmos o contrário de tudo isso, quem tem o direito de associar com negrura (no sentido de qualidade de negro)?

Cabe fazer uma ressalva ao estilo de preconceito identificado no nosso país relembrando o grande estudioso Oracy Nogueira, que bem fundamentado, nomeou o preconceito presente no Brasil como “Preconceito de Marca”. Com essa denominação feita por ele, não tenho dúvidas de que ela se encaixa perfeitamente com os fatos que presenciamos ultimamente. Entenderam? Shopping, Praia, Glamour, Elite, Luxo, Branco, Negro, Pobreza, Preconceito e Marca.

Para finalizar, existe ou sempre existiu a tentativa de expurgar a pobreza de certos espaços visto como de elite. Não é por acaso que ainda encontramos pessoas que nos dizem: e você vai sair assim para ir ao shopping é? Com esta roupa surrada e este chinelo? O nosso inconsciente está impregnado de informações que reforçam a noção de que determinado local, ou, o shopping é um espaço de poder, de luxo e, como tal, temos que nos fazer “apresentável”. Quando não nos fazemos “apresentável” o que acontece? Direi a vocês: seguranças andando atrás da gente pelo shopping, atendentes de lojas nos desprezando por nos julgar incapazes de termos condições financeiras para comprar algum produto da sua loja, segurança de supermercado duvidando se o carro no estacionamento é mesmo nosso, e tantas outras situações que passaria o resto do dia aqui descrevendo.

O que é “apresentável”? É parecer rico? É ser branco ou parecer branco? Ah! Já sei. É não parecer marginal? Mas e como é parecer marginal? Ei! Mas mesmo que me “vista bem” ainda sou parado pela polícia e recebo em muitas das vezes seus olhares interrogadores. Será que o problema está no estereotipo ou na minha cor? Ou é uma questão de problema macro estrutural?


Eu tenho minhas conclusões. E vocês?